"Ora, todos os preconceitos que aqui me proponho a expor dependem de um único, a saber, que os homens pressupõem, em geral, que todas as coisas naturais agem, tal como eles próprios, em função de um fim, chegando até mesmo a dar como assentado que o próprio Deus dirige todas as coisas tendo em vista algum fim preciso, pois dizem que Deus fez todas as coisas em função do homem, e fez o homem, por sua vez, para que este lhe prestasse culto. É esse preconceito, portanto, que, antes de mais nada, considerarei, procurando saber, em primeiro lugar, por que a maioria dos homens se conforma a esse preconceito e por que estão todos assim tão naturalmente propensos a abraçá-lo. Mostrarei, depois, sua falsidade e, finalmente, como dele se originaram os preconceitos sobre o bem e o mal, o mérito e o pecado, o louvor e a desaprovação, a ordenação e a confusão, a beleza e a feiúra, e outros do mesmo gênero." Spinoza, in "Ética"
Creio que estes preconceitos citados por Spinoza estão presentes, com bastante clareza, em "Édipo Rei".
Foram dessas obras mais antigas, como a dos gregos que, segundo alguns estudiosos, surgiu a ideia de pecado e o consequente castigo. Como se houvesse um encadeamento natural, um encadeamento de causa e efeito.
Em "Édipo Rei" está presente essa propagação da culpa para toda a descendência. Algo como foi posteriormente transposto para o cristianismo como a ideia do pecado original. Você nasce, tem uma vida reta, honesta, dentro de todos os cânones da igreja, mas lhe acontece uma tragédia. Ora, você está pagando pelos pecados de sua mãe, de seu pai, de Adão... Esta a explicação.
Segundo a Bíblia, Adão queria conhecimento e isto era inconcebível para a divindade. Comer da fruta do conhecimento parece ser algo diabólico até hoje. Fausto que o diga.
Então, ainda segundo a mitologia bíblica, Adão e Eva foram expulsos do paraíso e toda sua descendência foi amaldiçoada com o pecado original. A culpa, o remorso, sem ter cometido nenhum delito. Apenas por seguirem a própria natureza?
"Édipo Rei" contém todos esses ingredientes de causa e efeito dos atos humanos, encadeados para que sejam quase didáticos. Você fez, você paga. E seus descendentes também. Pior ainda, você não fez, seu pai fez, você também paga por isso. Sua mãe também, bem como toda a população do seu reino.
Na obra em questão, a causa foi o homossexualismo de Laio. As consequências, seu assassinato pelo filho e o casamento deste com a própria mãe.
Na realidade, a causa, fora da tragédia descrita por Sófocles, o homossexualismo de Laio, que nos parece ser um "pecado mortal" à época do autor, tornou-se quase uma instituição grega posteriormente, não gerando mais nenhuma punição por nenhuma divindade. Porém, as consequências foram devastadoras para tanta gente sem culpa nenhuma. Então, o autor tinha que encontrar alguma justificativa nas manipulações das divindades sobre os seres humanos. O que, me parece, Spinoza não aceitava. Este aceitava um Deus sem nenhuma ação direta sobre o Universo ou o ser humano. Era Deísta.
Já o Teísmo, "afirma a existência de um Deus pessoal que age pela sua providencia no mundo. Historicamente, remonta aos gregos. Em seu conceito, são determinantes a existência e a causalidade divinas. É a base fundamental das grandes religiões monoteístas.” (Roberto Malfatti)
Como os gregos não veneravam um deus único, toda a tragédia de Édipo é desencadeada por maldições lançadas pelo pai do Crísipo, o amado de Laio, e confirmadas pelos oráculos dos deuses.
Nada mais absurdo, nada mais atual, se nos debruçarmos na forma como somos consumidos diariamente por culpas que não temos, mas que as religiões nos ensinam a cultivar.
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