quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Sonata a Kreutzer, Liev Tolstoi

Muitos veem no livro "Sonata a Kreutzer" uma forte crítica à convenção do casamento, dizendo que Tolstoi praticamente destrói o matrimônio como o conhecemos. Existe, realmente, este lado de crítica social no livro, mas, o que mais nos chama a atenção, é a frágil estrutura familiar que o personagem tenta construir, principalmente por suas comparações pouco dignas às mulheres e por não conseguir atender aos anseios de carinho e afeto - amor, enfim - de sua esposa.

Mas vai muito além disso, principalmente porque o personagem manifesta grande aversão por suas relações sexuais e não vê saída no matrimônio para fazer a felicidade de sua esposa e, consequentemente, da família. A aversão sexual parece vir de comparações esdrúxulas entre esposa e prostitutas, recorrentes ao longo do livro, e a inadequação do casal ao matrimônio talvez resulte, além desta comparação, das relações de poder, marido x mulher, que os colocam em cantos opostos do "ringue" - o lar - ao invés de colaboradores solidários. Assim, o convívio cotidiano, com suas mostras intermináveis das diferenças entre o casal, começa por provocar, no personagem, uma raiva surda, contida, que depois "evolui" para o ódio. Finalmente, ao supor que a esposa pode estar se refazendo, física e espiritualmente, apesar deste ambiente hostil, a única verdade que ele vislumbra é: "ela tem prazer em algo mais além do matrimônio", e isto, na cabeça doída do marido, é traição.

Nas suas conjecturas, perturbado pelo ciúme e sem ver saída para o casamento já falido, e para tentar justificar essa inadequação pessoal, ele parte para a defesa de uma espécie de ascese, uma subjugação total dos desejos que possibilitasse os seres humanos não ter relação sexual nenhuma. Ou seja, passou a defender a total abstinência sexual. E até o aparecimento de indivíduos assexuados.

Esta defesa fica bem patente quando ele afirma: "A espécie superior do animal, a humana, para se conservar na luta contra outros animais, tem de se unir, como um enxame de abelhas, em vez de se propagar infinitamente; à maneira das abelhas, tem de criar indivíduos assexuados, ou seja, mais uma vez, procurar a abstinência e nunca a excitação da volúpia para a qual está orientado todo o sis­tema da nossa vida.". E continua, mais à frente: "paixão sexual, seja como for que a enfeitem, é um mal, um mal terrível contra o qual se deve lutar, e não estimulá-lo como se faz entre nós. As palavras do Evangelho sobre o homem que, olhando para uma mulher e cobiçando-a, já comete adulté­rio, não dizem respeito apenas às mulheres alheias mas, também, à nossa própria mulher.".

Ao contrário do que pretendia com essa "mortificação" quase religiosa, o personagem acabou por provocar a maior tragédia de sua vida, arrastando toda a família e atingindo-a de forma trágica, levando-o a ver uma traição onde havia apenas um prazer sem culpa e quase infantil de sua mulher pela música. Talvez até uma sublimação pelo que ela não obtinha do matrimônio nem de sua vida social. Mais por culpa do marido, do que dela. E o Estado a matou, por permitir um sistema que criminaliza os atos mais banais e transforma em vítima os verdadeiros criminosos. Como acontece até hoje nas relações de força tão desiguais.

Quase toda a narrativa do personagem parece, também, uma forma de justificar suas ideias insanas e seus atos mesquinhos. Justificativas que terminam com pedidos de perdão para uma situação já irremediável.