quinta-feira, 28 de junho de 2018

O Conto da Aia, de Margaret Atwood

Em sociedades patriarcais, machistas, como ainda são as nossas, ainda mais quando se organizam em ditaduras religiosas ou em tiranias de filósofos, como defendia Platão, onde será que as mulheres iriam parar?

Margaret Atwood responde com muita sabedoria: "Na República de Gilead, claro."

Em "O Conto da Aia", Margaret Atwood descreve uma ditadura religiosa, uma teocracia, chamada República de Gilead, onde foram adotados quase todos os princípios defendidos por Sócrates e descritos por Platão no seu livro "A República". Princípios que, em maior ou menor escala, já foram adotados em nossa filosofia ocidental judaico-cristã e que continuam a fazer enorme sucesso entre aqueles que teimam em defender repressão como única forma de controle e crescimento do ser humano.

Na República de Gilead, como na de Platão, estão presentes:

- as mulheres são seres inferiores e suas únicas "utilidades", são cuidar da casa, da cozinha e procriar;

- Platão/Sócrates defendiam o infanticídio como forma de depurar a raça. Em Gilead eram as mulheres estéreis e rebeldes que iam parar em colônias penais, onde morriam. Ou, então, em eventos chamados de "Salvamentos" onde eram executadas em praça pública;

- na República de Gilead, uma teocracia, o absolutismo era a forma de governo;

- a sociedade estava estratificada em castas: os Comandantes, as Esposas, as Martas, os Olhos, os Guardiães, as Tias e as Aias;

- foi imposta severa censura sobre as artes e artistas: poetas, músicos, atores, compositores, etc;

Margaret Atwood descreve para que serviam uma das Aias: "...fazia parte da primeira leva de mulheres recrutadadas para propósitos reprodutivos e fora destinada àqueles que não só requeriam esses serviços bem como podiam reinvindicá-los por meio de sua posição na elite. O regime criou uma reserva imediata dessas mulheres ao declarar adúlteros todos os segundos casamentos e ligações extraconjugais, prendendo as parceiras do sexo feminino, e, com fundamento de que elas moralmente inaptas, confiscando os filhos e filhas que já tivessem, que foram adotados por casais sem filhos dos escalões superiores que era ávidos por progênie, quaisquer que fossem os meios empregados."

Nesta descrição parece ecoar todas as palavras de Sócrates, transcritas por Platão em "A República":

"Sócrates — De acordo com os nossos princípios, é necessário tornar as relações muito freqüentes entre os homens e as mulheres de elite, e, ao contrário, bastante raras entre os indivíduos inferiores de um e outro sexo; além do mais, é necessário educar os filhos dos primeiros, e não os dos segundos, se quisermos que o rebanho atinja a mais elevada perfeição: e todas estas medidas deverão manter-se secretas, salvo para os magistrados, a fim de que, tanto quanto possível, a discórdia não se insinue entre os guerreiros."

"Sócrates — Assim, se um cidadão, mais velho ou mais novo, se imiscuir na obra comum de procriação, nós o declararemos culpado de impiedade e injustiça, pois fornece ao Estado um filho cujo nascimento secreto não foi colocado sob a proteção das preces e sacrifícios que as sacerdotisas, os sacerdotes e toda a cidade oferecerão para cada casamento, a fim de que de homens bons nasçam filhos melhores, e de homens úteis, filhos ainda mais úteis; um tal nascimento, ao contrário, será considerado fruto das trevas e da libertinagem."

A única diferença era que em "A República", de Platão, Sócrates defendia: "Todas as mulheres dos nossos guerreiros pertencerão a todos: nenhuma delas habitará em particular com nenhum deles. Da mesma maneira, os filhos serão comuns e os pais não conhecerão os seus filhos nem estes os seus pais."

A sociedade ocidental que se crê religiosa, culta e civilizada ainda tem muita recaída para o lado da simples repressão como forma de catalizar o medo que está sempre latente no seio de todas as comunidade humanas. Esta a parte mais horripilante do universo descrito em "O Conto da Aia", porque é um universo que está bem perto de todos nós. Ou, no mínimo, como um universo potencial onde os religiosos têm sede de assumir o poder em qualquer país do mundo e transformá-lo em uma tirania.

terça-feira, 20 de março de 2018

A Trágica História do Dr. Fausto, Christopher Marlowe

"...não é por julgarmos uma coisa boa que nos esforçamos por ela, que a  queremos, que a apetecemos, que a desejamos, mas, ao contrário, é por nos esforçarmos por ela, por querê-la, por apetecê-la, por desejá-la, que a julgamos boa." Spinoza, in "Ética"

O ser humano saiu das cavernas porque aquela situação incomodava-o profundamente. E somente saiu dali porque teve a ambição de conquistar melhor qualidade de vida. Com mais segurança, mais conforto, mais saúde, melhores alimentos, etc.

Ainda hoje é assim. Temos que ter ambições se quisermos atingir aquilo com que sonhamos.

A ambição pode ser impulsionada por algo que amamos ou que tenhamos muita afinidade como, por exemplo, alguém que é fã de aviação. Esta pessoa vai, muito provavelmente, querer lutar para ser engenheiro aeronáutico ou piloto. Se isto não estiver ao seu alcance imediatamente, é provável que queira ser, inicialmente, mecânico de avião ou comissário de bordo.

A ambição também pode ser impulsionada por uma situação/lugar que detestamos como, por exemplo, quando alguém se encontra em uma situação de extrema pobreza. Esta pessoa vai, muito provavelmente, querer lutar para sair desta situação a qualquer custo, principalmente, se o custo depender apenas de seu esforço pessoal, o que se torna quase impossível.

Conclusão, seja por amor a algo, ódio a uma situação ou por ambas as coisas é por ambição que o ser humano provoca mudanças que lhes pareça mais favoráveis à concretização de seus sonhos.

Entretanto, quando a pessoa ambiciona algo e tem consideração pelos outros, isto é, quando tem bons princípios e arraigado sentido de ética em suas relações, normalmente esta pessoa não extrapola os limites que a vida em comunidade impõe para que essa ambição não seja prejudicial aos outros.

Para estabelecer tais limites, os seres humanos criaram regras de comportamento que normatizam até que ponto podemos agir livremente em busca de maior riqueza, poder, conhecimento, saúde, etc. Isto impõe limites sérios ao nosso tão propalado livre arbítrio.

Essas regras de comportamento, inicialmente impostas através de conceitos como o Bem e o Mal, foram posteriormente transpostas para livros considerados sagrados, como a Bíblia dos cristãos, o Alcorão dos muçulmanos, o Mahabharata e os Vedas dos hindus, a Torá dos judeus, etc.

Os conceitos de Bem e Mal sempre estiveram presente no imaginário de todas as sociedades humanas. E, segundo toda a nossa literatura religiosa/mística/transcendental/esotérica, ambos podem ser manipulados pelos seres humanos. Para tanto, ainda segundo este tipo de literatura, basta que o crente conheça as palavras corretas, as fórmulas mágicas e combinar com uma vida compatível com o resultado que pretende alcançar.

Porém, esses conceitos ao serem transpostos para normas de conduta levaram consigo toda a carga de preconceitos existentes na sociedade/religião onde aqueles livros sagrados apareceram.

Então, apenas como exemplo muito simples, podemos ver em algumas dessas obras descrição de personagens que atingiram poder sem limites para conclamar os céus e trazer pragas/pestes mortíferas para seus "inimigos", além de ter um poder imenso de abrir os mares e fazer com que suas águas afogassem apenas os seus "inimigos". Outro, em guerra, fez parar o sol para que suas tropas pudessem destruir seus "inimigos". Tudo isso está contido em livros considerados sagrados.

Na mesma linha, segundo se extrai desses livros, fazer sacrifícios de ovelhas branquinhas - ou até do próprio filho - para aplacar a ira dos deuses é algo considerado "do Bem", Divino. Entretanto, fazer a mesma coisa com o mesmo objetivo, utilizando uma galinha preta, é algo considerado como "do Mal", do Demônio.

Ora, se a pessoa pode se fortalecer e atingir seus anseios de riqueza, poder e conhecimento utilizando esses livros sagrados ou qualquer livro mítico que dizem conter "O Centésimo Nome", porque não pode usar qualquer outro de Cabala ou qualquer livro mítico que dizem ser de ciências ocultas? Ainda mais quando não há qualquer prejuízo para terceiros e nem mesmo para a pessoa que o utilizou?

Na minha opinião, é o caso do Fausto descrito por Christopher Marlowe no livro "A Trágica História do Doutor Fausto".

Fausto ambicionava conhecimento. Na realidade, riqueza e poder através do conhecimento. Pensou até em estudar as ciências que estavam ao seu alcance e dali extrair conhecimentos, auferir rendimentos suficientes para viajar e frequentar as altas esferas da corte. Achou aquilo muito limitado. Sua religião parece que o limitava mais ainda. Diz a lenda que encontrou a fórmula mágica capaz de invocar aquele que poderia atender seus desejos e este atendeu-o prontamente. Mas a culpa advinda de sua formação religiosa fazia-o crer que a estava traindo e acabou tentando trair aquele que, segundo a lenda, deu-lhe plenas condições de concluir seu projeto de vida.

Mesmo não tendo prejudicado ninguém, nem a si próprio, em nenhum momento do livro, a culpa de se considerar fora das esferas "do Bem" fez com que o autor da peça o considerasse como destruído pelas forças "do Mal".

Se o autor tivesse escolhido destruir o personagem pela ira divina, as forças "do Bem", se é que isto existe, por mais cruel e sem propósito que seja, a justificativa seria de que foi castigo dos deuses ou teste para tolerância do fiel. Se não encontrou uma justificativa plausível, trata-se de ira demoníaca, por mais boas intenções que existam. Foi esta a conclusão do autor da peça.

Como diria Jung: O ser humano, mesmo o contemporâneo "...não consegue perceber que, apesar de toda a sua racionalização e toda a sua eficiência, continua possuído por 'forças' além do seu controle. Seus deuses e demônios absolutamente não desapareceram; têm apenas novos nomes. E conservam-no em contato íntimo com a inquietude, apreensões vagas, complicações psicológicas, uma insaciável necessidade de pílulas, álcool, fumo, alimento e, acima de tudo, com uma enorme coleção de neuroses." Carl G. Jung, in "O Homem e seus Símbolos" (citado por seu editor)

quarta-feira, 14 de março de 2018

Édipo Rei, Sófocles

"Ora, todos os preconceitos que aqui me proponho a expor dependem de um único, a saber, que os homens pressupõem, em geral, que todas as coisas naturais agem, tal como eles próprios, em função de um fim, chegando até mesmo a dar como assentado que o próprio Deus dirige todas as coisas tendo em vista algum fim preciso, pois dizem que Deus fez todas as coisas em função do homem, e fez o homem, por sua vez, para que este lhe prestasse culto. É esse preconceito, portanto, que, antes de mais nada, considerarei, procurando saber, em primeiro lugar, por que a maioria dos homens se conforma a esse preconceito e por que estão todos assim tão naturalmente propensos a abraçá-lo. Mostrarei, depois, sua falsidade e, finalmente, como dele se originaram os preconceitos sobre o bem e o mal, o mérito e o pecado, o louvor e a desaprovação, a ordenação e a confusão, a beleza e a feiúra, e outros do mesmo gênero." Spinoza, in "Ética"

Creio que estes preconceitos citados por Spinoza estão presentes, com bastante clareza, em "Édipo Rei".

Foram dessas obras mais antigas, como a dos gregos que, segundo alguns estudiosos, surgiu a ideia de pecado e o consequente castigo. Como se houvesse um encadeamento natural, um encadeamento de causa e efeito.

Em "Édipo Rei" está presente essa propagação da culpa para toda a descendência. Algo como foi posteriormente transposto para o cristianismo como a ideia do pecado original. Você nasce, tem uma vida reta, honesta, dentro de todos os cânones da igreja, mas lhe acontece uma tragédia. Ora, você está pagando pelos pecados de sua mãe, de seu pai, de Adão... Esta a explicação.

Segundo a Bíblia, Adão queria conhecimento e isto era inconcebível para a divindade. Comer da fruta do conhecimento parece ser algo diabólico até hoje. Fausto que o diga.

Então, ainda segundo a mitologia bíblica, Adão e Eva foram expulsos do paraíso e toda sua descendência foi amaldiçoada com o pecado original. A culpa, o remorso, sem ter cometido nenhum delito. Apenas por seguirem a própria natureza?

"Édipo Rei" contém todos esses ingredientes de causa e efeito dos atos humanos, encadeados para que sejam quase didáticos. Você fez, você paga. E seus descendentes também. Pior ainda, você não fez, seu pai fez, você também paga por isso.  Sua mãe também, bem como toda a população do seu reino.

Na obra em questão, a causa foi o homossexualismo de Laio. As consequências, seu assassinato pelo filho e o casamento deste com a própria mãe.

Na realidade, a causa, fora da tragédia descrita por Sófocles, o homossexualismo de Laio, que nos parece ser um "pecado mortal" à época do autor, tornou-se quase uma instituição grega posteriormente, não gerando mais nenhuma punição por nenhuma divindade. Porém, as consequências foram devastadoras para tanta gente sem culpa nenhuma. Então, o autor tinha que encontrar alguma justificativa nas manipulações das divindades sobre os seres humanos. O que, me parece, Spinoza não aceitava. Este aceitava um Deus sem nenhuma ação direta sobre o Universo ou o ser humano. Era Deísta.

Já o Teísmo, "afirma a existência de um Deus pessoal que age pela sua providencia no mundo. Historicamente, remonta aos gregos. Em seu conceito, são determinantes a existência e a causalidade divinas. É a base fundamental das grandes religiões monoteístas.” (Roberto Malfatti)

Como os gregos não veneravam um deus único, toda a tragédia de Édipo é desencadeada por maldições lançadas pelo pai do Crísipo, o amado de Laio, e confirmadas pelos oráculos dos deuses.

Nada mais absurdo, nada mais atual, se nos debruçarmos na forma como somos consumidos diariamente por culpas que não temos, mas que as religiões nos ensinam a cultivar.