Ainda hoje é assim. Temos que ter ambições se quisermos atingir aquilo com que sonhamos.
A ambição pode ser impulsionada por algo que amamos ou que tenhamos muita afinidade como, por exemplo, alguém que é fã de aviação. Esta pessoa vai, muito provavelmente, querer lutar para ser engenheiro aeronáutico ou piloto. Se isto não estiver ao seu alcance imediatamente, é provável que queira ser, inicialmente, mecânico de avião ou comissário de bordo.
A ambição também pode ser impulsionada por uma situação/lugar que detestamos como, por exemplo, quando alguém se encontra em uma situação de extrema pobreza. Esta pessoa vai, muito provavelmente, querer lutar para sair desta situação a qualquer custo, principalmente, se o custo depender apenas de seu esforço pessoal, o que se torna quase impossível.
Conclusão, seja por amor a algo, ódio a uma situação ou por ambas as coisas é por ambição que o ser humano provoca mudanças que lhes pareça mais favoráveis à concretização de seus sonhos.
Entretanto, quando a pessoa ambiciona algo e tem consideração pelos outros, isto é, quando tem bons princípios e arraigado sentido de ética em suas relações, normalmente esta pessoa não extrapola os limites que a vida em comunidade impõe para que essa ambição não seja prejudicial aos outros.
Para estabelecer tais limites, os seres humanos criaram regras de comportamento que normatizam até que ponto podemos agir livremente em busca de maior riqueza, poder, conhecimento, saúde, etc. Isto impõe limites sérios ao nosso tão propalado livre arbítrio.
Essas regras de comportamento, inicialmente impostas através de conceitos como o Bem e o Mal, foram posteriormente transpostas para livros considerados sagrados, como a Bíblia dos cristãos, o Alcorão dos muçulmanos, o Mahabharata e os Vedas dos hindus, a Torá dos judeus, etc.
Os conceitos de Bem e Mal sempre estiveram presente no imaginário de todas as sociedades humanas. E, segundo toda a nossa literatura religiosa/mística/transcendental/esotérica, ambos podem ser manipulados pelos seres humanos. Para tanto, ainda segundo este tipo de literatura, basta que o crente conheça as palavras corretas, as fórmulas mágicas e combinar com uma vida compatível com o resultado que pretende alcançar.
Porém, esses conceitos ao serem transpostos para normas de conduta levaram consigo toda a carga de preconceitos existentes na sociedade/religião onde aqueles livros sagrados apareceram.
Então, apenas como exemplo muito simples, podemos ver em algumas dessas obras descrição de personagens que atingiram poder sem limites para conclamar os céus e trazer pragas/pestes mortíferas para seus "inimigos", além de ter um poder imenso de abrir os mares e fazer com que suas águas afogassem apenas os seus "inimigos". Outro, em guerra, fez parar o sol para que suas tropas pudessem destruir seus "inimigos". Tudo isso está contido em livros considerados sagrados.
Na mesma linha, segundo se extrai desses livros, fazer sacrifícios de ovelhas branquinhas - ou até do próprio filho - para aplacar a ira dos deuses é algo considerado "do Bem", Divino. Entretanto, fazer a mesma coisa com o mesmo objetivo, utilizando uma galinha preta, é algo considerado como "do Mal", do Demônio.
Ora, se a pessoa pode se fortalecer e atingir seus anseios de riqueza, poder e conhecimento utilizando esses livros sagrados ou qualquer livro mítico que dizem conter "O Centésimo Nome", porque não pode usar qualquer outro de Cabala ou qualquer livro mítico que dizem ser de ciências ocultas? Ainda mais quando não há qualquer prejuízo para terceiros e nem mesmo para a pessoa que o utilizou?
Na minha opinião, é o caso do Fausto descrito por Christopher Marlowe no livro "A Trágica História do Doutor Fausto".
Fausto ambicionava conhecimento. Na realidade, riqueza e poder através do conhecimento. Pensou até em estudar as ciências que estavam ao seu alcance e dali extrair conhecimentos, auferir rendimentos suficientes para viajar e frequentar as altas esferas da corte. Achou aquilo muito limitado. Sua religião parece que o limitava mais ainda. Diz a lenda que encontrou a fórmula mágica capaz de invocar aquele que poderia atender seus desejos e este atendeu-o prontamente. Mas a culpa advinda de sua formação religiosa fazia-o crer que a estava traindo e acabou tentando trair aquele que, segundo a lenda, deu-lhe plenas condições de concluir seu projeto de vida.
Mesmo não tendo prejudicado ninguém, nem a si próprio, em nenhum momento do livro, a culpa de se considerar fora das esferas "do Bem" fez com que o autor da peça o considerasse como destruído pelas forças "do Mal".
Se o autor tivesse escolhido destruir o personagem pela ira divina, as forças "do Bem", se é que isto existe, por mais cruel e sem propósito que seja, a justificativa seria de que foi castigo dos deuses ou teste para tolerância do fiel. Se não encontrou uma justificativa plausível, trata-se de ira demoníaca, por mais boas intenções que existam. Foi esta a conclusão do autor da peça.
Como diria Jung: O ser humano, mesmo o contemporâneo "...não consegue perceber que, apesar de toda a sua racionalização e toda a sua eficiência, continua possuído por 'forças' além do seu controle. Seus deuses e demônios absolutamente não desapareceram; têm apenas novos nomes. E conservam-no em contato íntimo com a inquietude, apreensões vagas, complicações psicológicas, uma insaciável necessidade de pílulas, álcool, fumo, alimento e, acima de tudo, com uma enorme coleção de neuroses." Carl G. Jung, in "O Homem e seus Símbolos" (citado por seu editor)
Nenhum comentário:
Postar um comentário